AI superará o petróleo na economia, diz Jordi Visser
Por Editorial Team · 2026-04-10
Jordi Visser diz que a IA já vale mais que o petróleo na economia. Entenda a era agentic, o salto em compute, CPI acima de 4% e Bitcoin.
A aceleração da inteligência artificial está redesenhando a leitura dos mercados globais e, segundo Jordi Visser, já supera em relevância econômica fatores que por décadas ocuparam o centro das atenções, como o preço do petróleo. Em entrevista ao programa Forward Guidance, Visser defendeu que o avanço da IA não representa apenas uma evolução de software ou uma nova onda de automação, mas uma mudança estrutural na forma como a economia cria produtividade, distribui capital e precifica ativos. A leitura ganha peso em um momento em que o setor vive a transição do que ele chamou de era dos chatbots para uma fase mais avançada, descrita como agentic era, marcada por sistemas com maior autonomia e por uma demanda muito maior por capacidade computacional.
Visser, que é Head of AI Macro Research na 22V Research e CEO da Visser Labs, afirmou que o volume de compute necessário para sustentar essa nova fase cresceu de forma expressiva. Compute, nesse contexto, é a capacidade de processamento exigida para treinar e operar modelos de inteligência artificial. Em termos práticos, quanto mais sofisticada a aplicação de IA, maior tende a ser o consumo de chips, data centers, energia e infraestrutura em nuvem. O executivo disse que essa demanda já aumentou em uma escala muito superior à anterior, apontando que o salto ocorrido entre novembro e dezembro teria marcado uma virada importante na evolução do setor.
A ideia central apresentada por Visser é que a IA deixou de ser uma tecnologia restrita a interfaces conversacionais e passou a influenciar diretamente a estrutura produtiva da economia. Na leitura dele, isso altera a comparação histórica com o petróleo. Durante décadas, o preço do barril funcionou como um dos grandes vetores de impacto sobre inflação, crescimento e política monetária. Agora, segundo o analista, a influência da IA sobre investimentos, produtividade e alocação de capital já seria mais relevante do que a dinâmica do petróleo foi em períodos anteriores. O argumento não é apenas tecnológico, mas macroeconômico: a IA estaria passando a absorver trilhões de dólares em investimentos e, por isso, moldando decisões corporativas e financeiras em escala global.
Esse ponto ajuda a contextualizar um conceito importante da atual fase da indústria. Quando Visser fala em era agentic, ele se refere a sistemas de IA capazes de executar tarefas com maior grau de autonomia, em vez de apenas responder perguntas ou gerar textos sob comando direto. Essa transição amplia o uso da tecnologia em processos empresariais, financeiros e operacionais, mas também eleva as exigências de infraestrutura. Modelos mais complexos demandam mais processamento, e isso cria uma pressão adicional sobre fornecedores de hardware, nuvem e energia. O resultado é um ecossistema em que a expansão da IA não depende apenas de software, mas de uma cadeia inteira de capital e infraestrutura.
No campo macroeconômico, Visser também associou a expansão da IA a mudanças na forma como a produtividade passa a ser gerada. Para ele, a tecnologia está tornando mais eficiente o trabalho de empreendedores, enquanto empresas tradicionais podem encontrar dificuldades para se adaptar com a mesma velocidade. Essa assimetria é relevante porque aponta para um cenário em que a inovação se espalha de forma desigual. Em outras palavras, organizações menores ou mais ágeis podem capturar ganhos de produtividade antes das estruturas corporativas mais lentas. Para o mercado, isso significa uma possível redistribuição de competitividade entre companhias, setores e modelos de negócio.
O analista também comentou um elemento sensível para investidores: a inflação. Segundo sua projeção, o CPI, índice de preços ao consumidor dos Estados Unidos, deve subir acima de 4% na base anual nos próximos dois meses. O CPI é um dos principais indicadores usados para medir inflação e orientar expectativas sobre juros e política monetária. Quando esse indicador sobe, ativos de risco costumam reagir com volatilidade, porque cresce a possibilidade de manutenção de juros elevados por mais tempo. Visser vinculou esse quadro à estratégia de investimento em ações e afirmou que o melhor momento para comprar papéis pode surgir quando o sentimento de mercado migrar para uma visão de recessão nas próximas seis semanas.
Essa observação dialoga com a lógica de comportamento dos mercados em ciclos econômicos. Em períodos de forte pessimismo, muitas vezes os preços já incorporam um cenário adverso antes de os dados concretos piorarem ou melhorarem. Por isso, investidores experientes costumam observar não apenas os números da economia, mas também a percepção dominante sobre crescimento, emprego e inflação. Na visão apresentada por Visser, a janela mais interessante para ações não estaria no entusiasmo, e sim quando o mercado se convencer de que a atividade econômica caminha para uma recessão. O raciocínio é consistente com a ideia de que preços de ativos antecipam mudanças de ciclo, em vez de apenas reagirem a elas.
Outro tema abordado na entrevista foi o Bitcoin. Visser argumentou que a criptomoeda não deve ser interpretada a partir de modelos tradicionais de valuation, como o discounted cash flow, conhecido como fluxo de caixa descontado. Esse modelo é amplamente usado para avaliar empresas porque calcula o valor presente de fluxos de caixa futuros. O problema, no caso do Bitcoin, é que o ativo não gera receita, lucro ou fluxo operacional. Por isso, segundo ele, aplicar a mesma lógica de avaliação usada para ações seria inadequado. A leitura reforça uma discussão antiga no mercado de criptoativos: Bitcoin precisa ser analisado mais como ativo monetário ou reserva de valor do que como negócio convencional.
Visser também afirmou que o valor do Bitcoin está ligado à riqueza criada dentro do sistema fiduciário, e não a dinheiro novo entrando diretamente no mercado. Em termos econômicos, sistema fiduciário é o modelo baseado em moedas emitidas por governos e bancos centrais, cujo valor depende da confiança na autoridade monetária e não de lastro físico como ouro. Ao dizer que o Bitcoin é financiado pela riqueza acumulada nesse sistema, ele sugere que a valorização do ativo depende de transferência de capital de outros ativos já existentes, e não de criação espontânea de nova liquidez. Essa visão é importante porque desloca o debate do campo puramente tecnológico para o campo da alocação de patrimônio global.
Na prática, isso significa que a tese do Bitcoin continua dependente de um ambiente em que investidores buscam proteção, diversificação ou alternativas aos ativos tradicionais. Mesmo que a narrativa recente pareça menos favorável, especialmente em momentos em que grandes empresas de tecnologia concentram a atenção dos mercados, Visser defendeu que o Bitcoin segue relevante dentro do portfólio de muitos investidores. A leitura não elimina os riscos do ativo, mas enfatiza que sua função econômica é distinta da de ações ou títulos. Para o setor de cripto, esse tipo de interpretação ajuda a reforçar a noção de que o Bitcoin ocupa uma categoria própria dentro do ecossistema financeiro.
O analista ainda comentou o mercado de trabalho e projetou que a taxa de desemprego não deve subir de forma significativa. A explicação está em restrições estruturais, como escassez de mão de obra e fatores demográficos. Ele mencionou que o mercado já teria atingido um ponto de emprego elevado, convivendo com desafios ligados à demografia e à imigração. Essa leitura é relevante porque sugere um cenário em que a atividade pode desacelerar sem provocar uma deterioração brusca do emprego. Para empresas e formuladores de política econômica, isso implica um ambiente mais complexo: inflação persistente, produtividade em mudança e um mercado de trabalho ainda apertado.
Do ponto de vista corporativo, a principal consequência das ideias defendidas por Visser é a necessidade de adaptação rápida a uma economia mais orientada por IA. A expansão do uso de compute exige investimentos em infraestrutura digital, revisão de processos e reavaliação de estratégias de automação. Empresas que dependem de estruturas tradicionais podem enfrentar pressão competitiva de atores menores, mais flexíveis e mais capazes de usar tecnologia para ganhar eficiência. Ao mesmo tempo, companhias de hardware, semicondutores, nuvem e centros de dados tendem a permanecer no centro da expansão desse ecossistema, já que a IA só avança com capacidade computacional suficiente para sustentá-la.
Para investidores, o recado é que a combinação entre IA, inflação e mudanças na dinâmica de emprego pode alterar a leitura de risco em diferentes classes de ativos. A valorização da tecnologia não elimina volatilidade macroeconômica, e o próprio avanço da IA pode provocar deslocamentos setoriais profundos. Em um cenário assim, o mercado passa a observar menos os velhos referenciais e mais a velocidade com que empresas e setores conseguem capturar produtividade. A tese apresentada por Visser não é a de uma substituição instantânea da velha economia pela nova, mas a de um processo em curso, com efeitos já visíveis em capital, trabalho e valuation.
No conjunto, a entrevista reforça a percepção de que a inteligência artificial deixou de ser apenas uma promessa tecnológica e passou a atuar como força econômica central. O avanço dos sistemas agentic, o aumento das exigências de compute, a pressão sobre empresas tradicionais e a reavaliação de ativos como Bitcoin mostram um mercado em transição. Mesmo sem respostas definitivas, o diagnóstico apresentado aponta para um ponto comum: a IA já influencia decisões que vão muito além do setor de tecnologia e tende a se consolidar como um dos principais motores da próxima fase da economia global.
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