IA vai acelerar a indústria de tecnologia da Índia, diz Nasscom
Por PTI · 2026-04-26
Nasscom vê a IA como motor de crescimento na Índia: produtividade maior, novas demandas e receita perto de US$ 300 bi. Veja os impactos.
O setor de tecnologia da Índia deve passar por uma nova fase de expansão com o avanço da inteligência artificial, e não por uma retração provocada por essa tecnologia. Essa é a avaliação de Srikanth Velamakanni, novo presidente da Nasscom, entidade que reúne empresas de software e serviços do país. Em declarações recentes, ele afirmou que a IA vai acelerar o crescimento da indústria, aumentar a produtividade e, ao longo do tempo, sustentar a demanda por profissionais, mesmo em um momento em que o mercado já sente desaceleração nas contratações e efeitos da instabilidade geopolítica global.
Velamakanni assumiu a liderança da Nasscom em um contexto considerado delicado para o ecossistema indiano de tecnologia. De um lado, há pressão sobre as empresas para se adaptarem a mudanças provocadas por soluções de IA que automatizam etapas do trabalho. De outro, o ambiente internacional está marcado por incertezas políticas e comerciais, o que tende a atrasar decisões de investimento e contratação. Ainda assim, a entidade acredita que a indústria indiana está perto de um ponto de inflexão e que a inteligência artificial será um dos principais motores dessa transformação.
IA como vetor de expansão, não de substituição
Na avaliação do executivo, a inteligência artificial não deve ser vista como uma ameaça estrutural à tecnologia indiana. A tese defendida por ele é que a IA melhora o desempenho das operações, reduz o tempo necessário para executar determinadas tarefas e amplia a capacidade das empresas de entregar mais valor com menos esforço operacional. Isso, por sua vez, abre espaço para novas demandas, especialmente em projetos corporativos que exigem integração de sistemas, automação de processos e reformulação de fluxos de trabalho.
Essa visão se apoia em um raciocínio recorrente no mercado de tecnologia: quando uma ferramenta aumenta a eficiência, ela não elimina necessariamente a necessidade de trabalho humano, mas pode deslocar a força de trabalho para atividades mais complexas. No caso da IA, isso significa menos esforço em tarefas repetitivas e maior atenção a áreas como arquitetura de soluções, governança de dados, segurança, treinamento de modelos e adaptação de produtos para uso corporativo.
Velamakanni destacou ainda que a adoção de IA nas empresas pode gerar uma oportunidade de escala muito ampla. Segundo ele, conforme a tecnologia se torna mais barata e acessível, o número de aplicações possíveis cresce de forma acelerada. Em outras palavras, a indústria pode viver uma expansão da demanda por serviços digitais mesmo em um cenário no qual determinadas etapas do trabalho passem a exigir menos horas humanas.
Contratações em queda e pressão sobre o setor
Apesar do discurso otimista, a realidade atual do mercado de tecnologia na Índia mostra um ritmo mais cauteloso de contratações. A TCS, uma das maiores empresas de serviços de TI do país, informou em sua última teleconferência de resultados que pretende contratar cerca de 25 mil profissionais recém-formados no ano fiscal de 2027. O número é inferior ao volume de 44 mil recém-formados contratado no ano fiscal de 2026. Outras companhias do setor têm mostrado retração no quadro de funcionários ou adotado planos limitados de expansão.
O próprio presidente da Nasscom reconheceu que a velocidade das contratações caiu. Segundo ele, isso ocorre porque o crescimento ficou abaixo do esperado e porque determinadas tecnologias de IA já estão comprimindo a necessidade de horas de trabalho para realizar atividades semelhantes. Ainda assim, ele considera que a evolução da IA empresarial vai ampliar a demanda por talentos em outras frentes, especialmente à medida que as empresas precisem redesenhar processos internos para aproveitar os novos recursos.
Esse contraste entre redução no ritmo de admissões e expectativa de crescimento futuro ajuda a explicar o momento vivido pelo setor. As companhias estão ajustando estruturas enquanto avaliam onde a automação realmente substitui esforço operacional e onde ela cria novas camadas de complexidade técnica. Na prática, o mercado atravessa uma fase de reorganização, em que a quantidade de contratações pode não voltar imediatamente aos patamares anteriores, mas tende a mudar de perfil conforme a IA se torna mais presente nas operações.
O que significa transformação por inteligência artificial
Quando a Nasscom fala em transformação de processos e fluxo de trabalho por meio da IA, a referência é a aplicação de modelos e sistemas capazes de analisar dados, automatizar tarefas e apoiar decisões. Em empresas de software e serviços, isso pode envolver desde chatbots para atendimento até ferramentas que auxiliam desenvolvedores, analisam documentos, sugerem respostas, classificam informações e executam tarefas administrativas com menor intervenção manual.
O conceito de IA empresarial, citado por Velamakanni, diz respeito ao uso de inteligência artificial em ambientes corporativos, com foco em produtividade, escalabilidade e integração com sistemas já existentes. Não se trata apenas de oferecer produtos de consumo, mas de incorporar IA em operações críticas como suporte ao cliente, cadeia de suprimentos, análise de risco, desenvolvimento de software e gestão de dados. Por isso, a adoção em escala costuma exigir profissionais qualificados em várias disciplinas, não apenas em programação.
Outro termo implícito nas declarações é o de compressão de trabalho. Ele descreve o efeito em que uma mesma tarefa passa a exigir menos tempo ou menos pessoas para ser concluída. Isso pode reduzir custos, mas também exige redirecionamento da mão de obra para tarefas mais estratégicas. Em setores intensivos em conhecimento, como o de tecnologia, esse movimento costuma provocar mudanças nas funções tradicionais e criar demanda por novas especializações.
Mercado indiano e expectativa de receita
Mesmo com o ambiente mais desafiador, a Nasscom projeta que a indústria tecnológica indiana se aproxime da marca de 300 bilhões de dólares em receita no ano fiscal de 2026, ante cerca de 282 bilhões de dólares em 2025. O dado reforça que, apesar da desaceleração em contratações, o setor continua relevante e em trajetória de crescimento. A diferença entre receita crescente e emprego mais cauteloso indica que empresas estão tentando produzir mais valor com estruturas mais enxutas.
Esse cenário é especialmente importante em um país cuja indústria de TI se consolidou como uma das principais bases de exportação de serviços. Empresas indianas atendem clientes globais em áreas como consultoria, desenvolvimento de software, suporte técnico e operações digitais. Se a IA elevar a eficiência desses serviços, a expectativa é que a Índia mantenha posição de destaque, mas com um modelo de trabalho diferente do que dominou as últimas décadas.
Velamakanni também ressaltou que a indústria precisa recuperar o ritmo de crescimento e melhorar indicadores como receita e rentabilidade. A mensagem sugere que o desafio não é apenas tecnológico, mas também de execução empresarial. Para ele, a IA representa uma oportunidade de elevar o setor a um novo patamar, desde que as empresas consigam se adaptar rapidamente e transformar suas operações sem perder competitividade.
Impactos da instabilidade geopolítica
Além da inteligência artificial, outro fator que pesa sobre o setor é a turbulência geopolítica internacional. O presidente da Nasscom afirmou que a incerteza global leva empresas a adiar decisões e a adotar postura mais conservadora. Em um ambiente assim, projetos podem ser postergados, contratações podem ser revistas e investimentos podem passar por mais camadas de análise antes de serem aprovados.
Na prática, isso afeta diretamente companhias de tecnologia que dependem de contratos internacionais e de confiança dos clientes para acelerar expansão. Quando o cenário externo é instável, cresce a necessidade de resiliência organizacional, expressão usada para descrever a capacidade de uma empresa ou setor de resistir a choques, adaptar operações e manter continuidade de serviços mesmo sob pressão.
No caso da indústria indiana, essa resiliência envolve não apenas diversificação de mercados e clientes, mas também modernização de sistemas, proteção de cadeias de suprimento e fortalecimento de estruturas internas. A combinação entre instabilidade geopolítica e avanço acelerado da IA torna o planejamento mais complexo, mas também mais estratégico. Quem conseguir lidar melhor com essas duas forças pode sair em posição vantajosa.
O que o cenário indica para empregos e empresas
A principal mensagem das declarações de Velamakanni é que o futuro do emprego em tecnologia não deve ser lido de forma linear. Há, no curto prazo, redução de ritmo de admissões e reestruturação de funções. No médio prazo, porém, a ampliação do uso de IA pode abrir novas frentes de trabalho e gerar demanda por competências diferentes das que dominaram a onda anterior de expansão do setor.
Para empresas, isso significa a necessidade de investir em adaptação, treinamento e revisão de processos. Não basta adotar ferramentas de IA de maneira pontual. É preciso repensar como o trabalho é distribuído, como os dados são organizados e como os sistemas conversam entre si. Esse movimento tende a beneficiar companhias que conseguem combinar eficiência operacional com capacidade de inovação.
Para profissionais, o cenário aponta para uma transição de habilidades. Funções puramente repetitivas podem perder espaço, enquanto áreas ligadas a integração de sistemas, análise de dados, engenharia de software, segurança e governança ganham importância. A mensagem da Nasscom sugere que o mercado continuará contratando, mas com exigências mais alinhadas a um ambiente em que a IA passa a fazer parte do cotidiano das operações.
Síntese do momento vivido pela indústria
O posicionamento da Nasscom reflete uma leitura estratégica do momento da tecnologia na Índia. A inteligência artificial aparece como força de aceleração, capaz de ampliar a produtividade e criar novos mercados, mesmo diante da redução pontual nas contratações. Ao mesmo tempo, a instabilidade global e as mudanças de estrutura dentro das empresas exigem cautela, ajuste de expectativas e investimento em resiliência.
Em vez de representar uma ameaça direta ao setor, a IA é apresentada como um fator que pode redefinir sua escala e seu modelo de operação. Se a projeção de crescimento da receita se confirmar, a indústria indiana de tecnologia pode entrar em uma nova fase, menos baseada em expansão de mão de obra e mais sustentada por eficiência, automação e especialização. O desafio, agora, é transformar esse potencial em crescimento consistente sem perder capacidade de geração de empregos qualificados.
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PTI — Conteúdo revisado pela equipe editorial do GeraDocumentos, com foco em IA, produtividade e criação de documentos profissionais.