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Tags: futuro masculino, educação emocional, inteligência artificial, emprego masculino, desigualdade de gênero, violência masculina, mercado de trabalho, automação

O Futuro dos Homens: Educação Emocional e IA Ameaçam Emprego Masculino

Por Patrícia Fernandes · 2026-05-03

O Futuro dos Homens: Educação Emocional e IA Ameaçam Emprego Masculino

Descubra como educação emocional e IA ameaçam o emprego masculino. Artigo analisa os desafios e propõe novas perspectivas para o futuro dos homens no Ocidente.

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A dinâmica social e econômica do Ocidente tem sido profundamente impactada por uma série de transformações nas últimas décadas, muitas delas impulsionadas pelo avanço tecnológico e por novas abordagens educacionais. Um artigo recente publicado no Observador, intitulado "O futuro dos homens", assinado por Patrícia Fernandes, professora na Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho, levanta questões cruciais sobre a preparação das sociedades ocidentais para lidar com os desafios que se apresentam, especialmente no que diz respeito ao papel e ao futuro dos homens em um mundo cada vez mais automatizado e focado em habilidades emocionais. O texto argumenta que a negação das diferenças inerentes entre os sexos, sob o pretexto de uma igualdade total e de uma "página em branco" onde tudo é moldável, pode levar a disfuncionalidades sociais e a uma sensação de mal-estar generalizado, particularmente prejudicial para os rapazes e homens.

O Paradigma da "Página em Branco" e Suas Consequências

A autora inicia seu artigo desafiando o que denomina como o "paradigma da página em branco", que se traduz na ideia de que o gênero é uma construção social totalmente variável e sob controle humano, desconsiderando influências biológicas ou evolutivas. Embora reconheça que as sociedades criam papéis de gênero com variabilidade cultural, Fernandes argumenta que essa ênfase na maleabilidade total tem sido uma "grande vitória do feminismo", mas que tem conduzido a "múltiplas disfuncionalidades e sensação de mal-estar das sociedades ocidentais". Ela postula que, embora não sejamos totalmente determinados pela evolução, somos, no mínimo, "páginas rascunhadas", e o sexo biológico é um dos elementos mais relevantes nesse rascunho.

Dentro deste contexto, a professora critica a crescente influência da "educação para as emoções" no sistema educacional. Segundo ela, a obsessão com as emoções individuais e a prática constante de refletir sobre elas têm gerado crianças mais autocentradas, mimadas, indisciplinadas e agressivas. Essa abordagem é considerada particularmente prejudicial para os rapazes, pois se baseia na ideia de libertá-los de uma suposta "masculinidade tóxica" imposta pela sociedade. A teoria subjacente, ligada ao paradigma da página em branco, sugere que educar rapazes para serem emocionais, sensíveis e empáticos resultaria em uma sociedade menos violenta. Contudo, Fernandes contesta essa premissa, afirmando que "isso não está a acontecer".

A Recorrência da Violência e a Falha da Educação Emocional

O artigo aborda a questão do "regresso da violência" nas sociedades ocidentais. Embora seja difícil afirmar categoricamente que há mais violência hoje do que em décadas anteriores do século XX, a autora observa uma "predisposição maior para legitimar atos violentos". Ela cita como exemplo a música de Carsie Blanton sobre Luigi Mangione e a ocupação crescente do espaço público por ideias que legitimam certos tipos de violência (aquela "do nosso lado") para atingir objetivos específicos, enquanto qualquer outro tipo de violência é considerado inaceitável. Fernandes destaca que, mesmo quando mulheres participam da discussão pela legitimação da violência, a prática efetiva é majoritariamente masculina, referindo-se a um "privilégio do género" onde se legitimam atos violentos, mas as consequências são assumidas pelo "outro género".

A contradição central reside na aparente falha da educação emocional em reduzir a violência. Se a violência pudesse ser erradicada pela educação, especialmente a emocional, e bastasse formatar rapazes para serem empáticos, por que anos de educação emocional não resultaram em uma sociedade menos violenta? Fernandes argumenta que o paradigma da página em branco impede o reconhecimento dos limites reais do que é possível. Os fracassos da estratégia não são vistos como resultados de falhas teóricas, mas sim como "ainda não fomos suficientemente longe", ou a necessidade de "desconstruir permanentemente". Essa abordagem, segundo a autora, é perigosa por não ser "falsificável", pois nunca aceita que os erros possam estar na teoria, mas sempre na sua aplicação.

Em contrapartida, a realidade é apresentada como mais teimosa. A violência é vista como uma dimensão "inevitável das sociedades humanas", e as estratégias históricas para lidar com a agressividade masculina giram em torno da disciplina e da atividade física, ambas dimensões que sofreram forte diminuição nas últimas décadas. A "educação para as emoções" sobrevaloriza a reflexão em detrimento da disciplina, e os espaços de liberdade física para os rapazes diminuíram drasticamente. Eles têm menos oportunidades para correr, subir em árvores, jogar futebol e até mesmo para se envolver em conflitos físicos de menor gravidade, como aponta Carlos Neto. O papel do pai, que tende a brincar de forma mais física com os filhos – brincadeiras de risco e contato físico que ajudam a regular emoções de medo e insegurança, em contraste com funções maternas diferentes, como nota Erica Komisar – tem sido, portanto, afetado.

Com a crescente "higienização" dos espaços públicos, até mesmo atividades como o futebol, que poderiam servir como válvula de escape para tensões sociais, são restringidas. A participação militar, outra possível via para canalizar energia e desenvolver disciplina, também é escassa. O resultado, segundo Fernandes, são equilíbrios sociais cada vez mais precários, e o futuro não se apresenta mais promissor do que as sociedades passadas, que também não eram perfeitas.

O Impacto Disruptivo da Tecnologia no Mundo Masculino

A autora reconhece a dificuldade em abandonar o paradigma da página em branco, pois isso implicaria renunciar à utopia de um mundo perfeito e aceitar a imperfeição inerente à condição humana. No entanto, essa aceitação tornaria os indivíduos mais capazes de interpretar o mundo, compreender tendências e identificar perigos, especialmente aqueles gerados pelo impacto da tecnologia no mundo masculino e em seu futuro. O desenvolvimento tecnológico, de acordo com o artigo, tem afetado desproporcionalmente o mundo do trabalho masculino no Ocidente.

Uma primeira fase dessa transformação foi marcada por dois fatores conjuntos: a automação, que esvaziou postos de trabalho tradicionalmente masculinos por exigirem maior força física, e a desindustrialização e deslocalização de empregos. Esse cenário levou à cunhagem do termo "deaths of despair" (mortes por desespero), para descrever os efeitos dessa tendência de substituição que atinge desproporcionalmente os homens. Agora, uma "segunda vaga" surge com o impacto da inteligência artificial (IA).

O artigo aponta para as limitações da IA em tarefas que exigem habilidades afetivas e um maior grau de relacionamento humano – trabalhos que tendem a ser mais desempenhados por mulheres. Por outro lado, profissões consideradas excelentes opções para os rapazes nos últimos 30 anos, como as ligadas à informática e à programação, têm se mostrado surpreendentemente fáceis de serem substituídas. Isso pode deixar milhões de jovens no Ocidente sem trabalho ou propósito.

Os países ocidentais já enfrentam o grupo designado como "nem-nem" – jovens, majoritariamente rapazes, que não trabalham nem estudam. A pergunta que se impõe, e que serve como alerta final no artigo, é: estarão essas sociedades preparadas para "exércitos de homens", devidamente educados para as emoções, mas desprovidos de trabalho e objetivos?

Desdobramentos e Considerações Finais

O artigo de Patrícia Fernandes lança um olhar crítico sobre as premissas que têm guiado as políticas educacionais e sociais no Ocidente, especialmente a ideia de que as diferenças de gênero são puramente construções sociais. Ao questionar a eficácia da "educação para as emoções" na redução da violência e ao destacar o impacto tecnológico no mercado de trabalho masculino, ela levanta um alerta pertinente sobre o futuro. A substituição de empregos em setores tradicionais masculinos pela automação e, agora, pela IA, combinada com uma educação que, segundo a autora, pode não preparar adequadamente os rapazes para os desafios atuais, cria um cenário preocupante.

A premissa da "página em branco", ao negar ou minimizar as diferenças biológicas e evolutivas, pode estar levando a estratégias educacionais e sociais que falham em lidar com a realidade, gerando mais frustração e disfunção do que soluções. A falta de preparo para um futuro com menos empregos tradicionalmente masculinos e a possível escassez de objetivos claros para uma parcela significativa da população masculina exigem uma reavaliação das abordagens vigentes. A transição para uma economia baseada em serviços e conhecimento, onde habilidades cognitivas e emocionais são valorizadas, pode não ser suficiente para absorver todos os homens que estão sendo marginalizados pela automação de tarefas mais físicas ou repetitivas. A questão de como preparar estes homens para a sociedade e para o mercado de trabalho, respeitando, talvez, algumas de suas predisposições naturais, torna-se um dos desafios mais prementes para o futuro.

A Urgência de uma Nova Perspectiva

A tese central do artigo aponta para a necessidade de abandonar a utopia de um mundo perfeito e totalmente moldável, em favor de uma compreensão mais realista da natureza humana e de suas limitações. A aceitação de que a violência pode ser uma dimensão inerente à sociedade e que a disciplina e a atividade física são ferramentas históricas eficazes para sua mitigação é um ponto de partida. A autora sugere que as sociedades ocidentais precisam urgentemente reconsiderar o papel do esporte, da atividade física e de um certo tipo de "risco calculado" no desenvolvimento dos rapazes, em vez de buscar uma "higienização" excessiva dos espaços e das experiências.

Ademais, a forma como a tecnologia, em particular a IA, está reconfigurando o mercado de trabalho exige uma estratégia proativa. Se profissões ligadas à informática e programação, antes vistas como promissoras para os homens, estão se tornando obsoletas rapidamente, é crucial investir em novas áreas de formação e em programas de requalificação que considerem as aptidões e os interesses de um espectro mais amplo de homens. Ignorar as diferenças de gênero, ou tentar suprimi-las em nome de uma igualdade idealizada, pode ser um caminho equivocado que leva à alienação e à desintegração social. A pergunta sobre a preparação para "exércitos de homens sem trabalho ou objetivos" não é retórica, mas um chamado à ação para repensar as bases da educação, do mercado de trabalho e da organização social na era digital.

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Referência: https://observador.pt/opiniao/o-futuro-dos-homens/

Sobre o autor

Patrícia Fernandes — Conteúdo revisado pela equipe editorial do GeraDocumentos, com foco em IA, produtividade e criação de documentos profissionais.